O câncer de testículo é, provavelmente, o tipo de câncer mais subestimado entre os homens. Diferentemente de outros tumores urológicos, ele não afeta predominantemente homens maduros ou idosos — seu alvo são adolescentes e adultos jovens, exatamente na fase de maior vitalidade, produtividade e vida reprodutiva.
O câncer de testículo é a neoplasia maligna mais frequente em homens entre 15 e 35 anos. Noventa e cinco por cento dos casos afetam adultos jovens nessa faixa etária, em plena atividade produtiva e reprodutiva.
E o dado que mais chama atenção: de acordo com o Atlas de Mortalidade do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de testículo foi responsável por mais de 3,7 mil mortes no Brasil entre 2012 e 2021, das quais 60% entre homens de 20 a 39 anos — em sua maioria por uma doença que tem 90% a 95% de possibilidade de controle quando diagnosticada a tempo.
A combinação de alta incidência em jovens, baixo nível de conhecimento sobre a doença e o tabu em falar sobre a saúde genital masculina cria um cenário preocupante. Este artigo existe para mudar isso.

Por que o câncer de testículo afeta principalmente homens jovens
O câncer de testículo tem uma biologia distinta da maioria dos tumores sólidos. Os tumores de células germinativas testiculares são as neoplasias malignas mais comuns em adolescentes e adultos jovens do sexo masculino — e são doenças potencialmente curáveis, que devem ser tratadas com intenção curativa.
Um estudo publicado em 2026, com dados do DATASUS referentes a homens de 20 a 59 anos diagnosticados no Brasil entre 2015 e 2024, registrou 13.354 casos de câncer de testículo no período, com pico de incidência na faixa etária de 25 a 29 anos, responsável por 23,8% dos casos.
Essa concentração em adultos jovens não é coincidência: os tumores de células germinativas — que representam a grande maioria dos casos — têm origem em células que sofreram alterações durante o desenvolvimento embrionário dos testículos, manifestando-se clinicamente justamente nas décadas de maior maturidade sexual.
Os dois tipos principais
Os tumores testiculares são classificados, principalmente, em dois grandes grupos:
| Tipo | Características | Ocorrência |
| Seminoma | Crescimento mais lento, maior sensibilidade à radioterapia | Homens entre 25 e 45 anos |
| Não seminoma | Mais agressivo, pode incluir diferentes subtipos celulares | Homens entre 15 e 35 anos |
Ambos os tipos respondem bem ao tratamento quando detectados em estágios iniciais, o que reforça ainda mais a importância do diagnóstico precoce.
Fatores de risco: quem tem mais chance de desenvolver a doença
Embora a causa exata do câncer de testículo não seja completamente conhecida, alguns fatores de risco estão bem documentados na literatura científica:
Criptorquidia É o principal fator de risco individual. A criptorquidia — condição em que um ou ambos os testículos não descem para a bolsa escrotal — pode elevar o risco de desenvolver câncer de testículo em até 50 vezes. O testículo retido fica exposto a uma temperatura corporal mais elevada do que o normal, o que interfere na maturação celular e favorece alterações malignas.
Histórico familiar Estudos demonstraram maior risco de incidência especialmente entre irmãos. Homens cujo pai ou irmão tiveram câncer de testículo devem redobrar a atenção e discutir o risco com seu urologista.
Câncer anterior no testículo contralateral Quem já teve câncer em um testículo apresenta risco aumentado de desenvolver a doença no outro. O acompanhamento urológico regular após o tratamento é fundamental nesses casos.
Infertilidade A infertilidade, que pode estar relacionada a anomalias genéticas, é outro fator de risco associado ao câncer de testículo. Em alguns casos, a investigação da infertilidade masculina pode levar à detecção de alterações testiculares que merecem avaliação oncológica.
Exposição ocupacional a agrotóxicos A exposição ocupacional a agrotóxicos também está associada ao aumento do risco de desenvolvimento da doença.

Sintomas: o que ficar atento
Um dos aspectos mais críticos do câncer de testículo é que, em seus estágios iniciais, os sintomas costumam ser discretos — e frequentemente indolores. Essa característica faz com que muitos homens demorem a buscar avaliação médica, aguardando uma dor intensa que muitas vezes simplesmente não aparece.
Sintomas locais (no escroto e testículo):
- Nódulo ou caroço endurecido dentro do testículo — este é o sinal mais clássico. O INCA descreve como mais comum o aparecimento de um nódulo duro, geralmente indolor, percebido ao toque. Mesmo quando pequeno, deve ser investigado.
- Aumento de volume em um dos testículos, com alteração de formato ou textura
- Sensação de peso, pressão ou desconforto persistente no escroto
- Endurecimento do testículo ao toque, diferente do habitual
- Dor ou sensibilidade local — pode ou não estar presente
Sintomas que podem indicar doença em estágio mais avançado:
- Dor lombar (costas) — pode indicar comprometimento de linfonodos abdominais
- Massa palpável no abdome
- Falta de ar — em casos raros com metástases pulmonares
- Crescimento mamário (ginecomastia) — decorrente da produção hormonal pelo tumor
Alguns sintomas do câncer de testículo podem ser confundidos com outras condições, como inflamação no próprio testículo ou no epidídimo, hidrocele (acúmulo de líquido na bolsa escrotal) e varicocele. Por isso, qualquer alteração persistente deve ser investigada pelo urologista — o diagnóstico diferencial é essencial.
A regra mais importante: qualquer alteração percebida no testículo, independentemente de haver dor, deve ser avaliada por um urologista sem demora.

Diagnóstico: como é feito e quais exames são utilizados
O diagnóstico do câncer de testículo é realizado pelo urologista a partir de uma combinação de avaliação clínica, exames de imagem e laboratoriais. A atenção a sinais de alteração do testículo, como a presença de nódulos ou o crescimento anormal da glândula, pode levar ao diagnóstico precoce do tumor.
Exame físico: O urologista realiza a palpação cuidadosa do escroto e dos testículos em busca de irregularidades no tamanho, textura ou consistência.
Ultrassonografia testicular: Exame de imagem essencial para avaliar o nódulo, sua localização e características vasculares. Os exames de imagem permitem a observação do nódulo, que costuma ser bem vascularizado — uma característica que contribui para a suspeita oncológica.
Marcadores tumorais no sangue: Alterações nos marcadores alfa-fetoproteína (AFP), beta-HCG e lactato desidrogenase (LDH), identificados por exames de sangue, também podem indicar a presença do câncer de testículo. Esses marcadores são usados tanto no diagnóstico quanto no monitoramento da resposta ao tratamento.
Orquiectomia inguinal: Quando há suspeita firme de tumor, a remoção cirúrgica do testículo afetado pela via inguinal (virilha) é o procedimento padrão — e serve simultaneamente como diagnóstico definitivo é o primeiro passo do tratamento.
Importante: o INCA e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) esclarecem que não há recomendação de rastreamento populacional para câncer de testículo em pessoas sem sintomas, pois não existe evidência científica de benefício que justifique esse rastreamento universal. O autoexame pode ajudar no reconhecimento de alterações, embora não exista um protocolo formal de periodicidade.
O autoexame testicular: como fazer
Embora não exista protocolo oficial de rastreamento universal, o autoexame testicular é amplamente incentivado pela SBU como estratégia de detecção precoce de alterações suspeitas. A coordenadora da campanha Abril Lilás da SBU destaca que bastaria que os homens conhecessem melhor seu próprio corpo e realizassem o autoexame — pois o câncer de testículo é de relativo fácil diagnóstico quando se percebe precocemente.
Como realizar:
- Prefira fazê-lo após o banho quente, quando a musculatura do escroto está mais relaxada
- Com as duas mãos, apalpe cada testículo separadamente entre os dedos
- Sinta a superfície, o tamanho, a consistência e compare um lado com o outro
- Identifique o epidídimo (estrutura posterior ao testículo) para não confundir com um nódulo suspeito
- Procure qualquer nódulo endurecido, assimetria nova, aumento de volume ou mudança de textura
Se perceber qualquer alteração, procure um urologista. Não espere a dor aparecer.

Tratamento e fertilidade: o que saber
A orquiectomia inguinal é o principal procedimento diagnóstico e também é curativa para a maioria dos tumores localizados. Nos casos com fatores desfavoráveis para recorrência ou com doença avançada, pode ser necessário tratamento complementar com quimioterapia ou radioterapia.
Uma preocupação legítima dos pacientes em idade reprodutiva é o impacto do tratamento na fertilidade. Todo homem com tumor de testículo deve ser orientado sobre esse impacto e ter oferecido a opção de preservação do sêmen por congelamento antes do início do tratamento. Essa medida simples pode preservar a possibilidade de paternidade futura, mesmo nos casos que exijam quimioterapia.
No Brasil, entre 2015 e 2024, quase metade dos casos de câncer de testículo foram diagnosticados em estágios avançados (III/IV), o que contribui para o pico de mortalidade observado na faixa de 20 a 29 anos. Esse dado reforça que o principal problema não é a falta de tratamento eficaz — é o atraso no diagnóstico.
Conclusão
O câncer de testículo é altamente tratável quando detectado precocemente — mas mata jovens todos os anos no Brasil porque ainda é pouco conhecido, cercado de tabu e frequentemente descoberto tarde demais. Conhecer os sinais de alerta, realizar o autoexame periodicamente e não adiar a consulta ao urologista diante de qualquer alteração são atitudes que fazem diferença real.
Se você tem entre 15 e 40 anos, não tem histórico de consultas urológicas regulares e nunca ouviu falar sobre o autoexame testicular, este é o momento de mudar isso. Procure um urologista para uma avaliação e tire todas as suas dúvidas.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre Câncer de Tésticulos
Quais são os primeiros sinais do câncer de testículo?
O sinal mais comum é o aparecimento de um nódulo duro dentro do testículo, geralmente indolor. Também podem ocorrer aumento de volume, endurecimento, sensação de peso ou desconforto persistente no escroto. A ausência de dor não significa ausência de doença — qualquer alteração deve ser investigada pelo urologista.
O câncer de testículo tem cura?
Quando diagnosticado em estágios iniciais, o câncer de testículo apresenta taxa de controle da doença muito elevada — acima de 90% nos casos localizados, conforme dados do INCA e da SBCO. Mesmo nos casos com metástases, o tratamento pode ser eficaz. O fator mais importante é a precocidade do diagnóstico.
Com que frequência devo fazer o autoexame testicular?
Não existe um protocolo oficial com frequência definida para o autoexame. O mais importante é conhecer o próprio corpo e identificar qualquer alteração nova — nódulo, assimetria ou mudança de consistência. Ao perceber qualquer mudança, procure um urologista imediatamente.
Quem tem criptorquidia tem certeza que vai ter câncer de testículo?
Não. A criptorquidia aumenta o risco, mas não determina que a doença vai ocorrer. O acompanhamento urológico regular é fundamental para homens com esse histórico, permitindo identificar precocemente qualquer alteração suspeita.
O tratamento do câncer de testículo afeta a fertilidade?
Dependendo do tipo e extensão do tratamento, pode haver impacto na produção de espermatozoides. Por isso, é recomendado que todo paciente seja orientado sobre a possibilidade de preservação do sêmen por congelamento antes de iniciar o tratamento — uma medida que pode ser decisiva para a paternidade futura.


